Retrato oficial do senador Bernie Sanders
Política de Tecnologia

Bernie Sanders quer pausa em novos data centers de IA

Senador defende moratória nos EUA por preocupação com uso de energia, pressão na rede elétrica, água e concentração de riqueza entre grandes empresas de tecnologia

Danilo Gato

Danilo Gato

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29 de dezembro de 2025
10 min de leitura

Introdução

Bernie Sanders colocou a discussão sobre uma pausa em novos data centers de IA no centro do debate público, a proposta mira diretamente o ritmo da expansão e seus efeitos no consumo de energia e na concentração de riqueza. A preocupação não é abstrata, ela nasce do salto de demanda elétrica e de água associado a cargas de IA, que pressionam redes regionais e orçamentos locais.

A palavra-chave aqui é pausa em novos data centers de IA. E o motivo aparece em números. Relatórios do Departamento de Energia e de laboratórios nacionais apontam que o consumo dos data centers nos Estados Unidos pode dobrar ou até triplicar até 2028, enquanto a IEA estima que, no mundo, o gasto elétrico dos data centers mais que dobre até 2030. Em mercados como PJM, que atende parte do Meio-Atlântico e do Meio-Oeste, praticamente todo o crescimento de pico até 2030 vem da demanda de data centers.

O artigo aprofunda o que está por trás do pedido de moratória, quais dados sustentam a tese, onde estão os maiores gargalos de energia e água, o que empresas e governos estão fazendo e que medidas práticas ajudam a equilibrar inovação com confiabilidade da infraestrutura.

O que exatamente Sanders propõe e por quê

O ponto de partida foi uma manifestação pública em 16 de dezembro de 2025, quando Sanders disse que defenderia uma moratória para dar tempo à democracia de “alcançar” o ritmo da IA. A crítica central mira o desequilíbrio entre quem captura os ganhos econômicos e quem arca com os custos de energia, água e infraestrutura locais.

Na prática, a proposta de pausa em novos data centers de IA busca três objetivos. Primeiro, medir de forma transparente o impacto elétrico e hídrico por projeto. Segundo, exigir contrapartidas para reforço de rede, geração e eficiência, evitando que a conta recaia sobre consumidores residenciais e pequenas empresas. Terceiro, conectar benefícios fiscais a metas claras de empregos qualificados e de mitigação ambiental.

Do outro lado, o setor argumenta que data centers geram investimento, impostos e empregos, além de ativarem contratos de renováveis. O debate precisa de números recentes para sair da retórica. E os números já contam uma história robusta.

O retrato energético, dados recentes e onde a rede está esticando

Nos Estados Unidos, data centers consumiram cerca de 183 TWh em 2024, pouco mais de 4 por cento do uso elétrico do país, com forte concentração regional. Em 2023, eles representaram 26 por cento do consumo da Virgínia e fatias de dois dígitos em estados como Dakota do Norte, Nebraska, Iowa e Oregon. A projeção é de 426 TWh em 2030, um salto de 133 por cento.

Globalmente, a IEA projeta que o consumo elétrico de data centers mais que dobre até 2030, com a adoção de servidores acelerados para IA crescendo por volta de 30 por cento ao ano. Esse crescimento, embora ainda represente alguns pontos percentuais do total global, pesa muito em mercados locais onde as cargas se concentram.

Nos sistemas regionais, o estresse já aparece. O operador PJM estima aumento de pico de 32 GW de 2024 a 2030, sendo 30 GW atribuídos a data centers, o que vem elevando preços de capacidade e preocupação com adequação de recursos. A entidade abriu processos acelerados para tratar de grandes cargas e avaliar modelos de co-localização de geração com data centers.

O efeito colateral atinge o bolso e a confiabilidade. Reportagens recentes indicam reativação de usinas de pico obsoletas, mais caras e poluentes, para dar conta dos horários críticos, um indício de que a expansão de carga corre mais rápido do que a expansão de transmissão e geração firme.

Para completar, o curto prazo aponta demanda recorde nos setores residencial, comercial e industrial em 2025 e 2026, com a EIA citando data centers como um dos agentes por trás da revisão de alta. Isso reforça a necessidade de planejamento coordenado, porque data centers crescem junto com eletrificação e reindustrialização.

![Corredor de racks em data center]

Água e resfriamento, o outro gargalo da expansão

Além de eletricidade, a água virou variável crítica. Estimativas compiladas pelo Pew Research Center a partir de estudos do LBNL apontam que data centers nos EUA consumiram diretamente cerca de 17 bilhões de galões em 2023, com projeções de 16 a 33 bilhões de galões por ano apenas para hyperscalers até 2028. Quarenta por cento dos data centers do país ficam em áreas com alta ou extrema escassez de água, o que amplifica conflitos locais.

Casos do Sudoeste ilustram a tensão. Em Arizona, reportagens e pesquisas sobre projetos em Goodyear e na região metropolitana de Phoenix calculam consumos na casa de dezenas de milhões de galões anuais por campus, o suficiente para provocar reação de moradores e do setor imobiliário, que vê regras mais duras para habitação do que para empreendimentos industriais. Ao mesmo tempo, dados estaduais situam o uso total anual dos data centers em torno de 905 milhões de galões, algo como água para 10 mil residências, menos de um décimo de um por cento do orçamento hídrico do estado, um lembrete de que o peso é local, não necessariamente estadual.

Há, porém, respostas tecnológicas. Fabricantes e operadores já testam sistemas de ar direto, adiabático com otimização fina, líquido para chip e até projetos que prometem operação com zero água adicional em determinadas condições. No Arizona, a Microsoft divulgou iniciativas para reduzir a necessidade de água com novas soluções de resfriamento e compromissos de sustentabilidade específicos para a região.

A reflexão prática é simples. Em regiões áridas, a licença social depende de três pilares, transparência de consumo real por site, metas verificáveis de eficiência hídrica por MWh de TI e investimento em reposição local de bacias, sem depender apenas de créditos remotos. Do lado do poder público, o caminho é padronizar disclosure de água como condição para incentivos e conexão, a exemplo do que alguns estados já discutem.

Comunidades, licenciamento e a geografia dos conflitos

Ilustração do artigo

A concentração geográfica cria atrito político e jurídico. No norte da Virgínia, a maior concentração de data centers do mundo virou palco de batalhas em conselhos municipais e tribunais. O megaprojeto Digital Gateway, em Prince William County, passou por longas audiências, aprovou etapas importantes e, depois, enfrentou novas reviravoltas judiciais que colocaram seu cronograma em dúvida. O aprendizado é que o custo de transação explode quando a expansão corre à frente de zoneamento, transmissão e mitigação de ruído visual e sonoro.

A pressão não se limita à Virgínia. Operadores de rede reportam alta de curtailment e congestionamento em regiões como SPP e ERCOT, sinais de que a malha de transmissão não acompanha a velocidade do acréscimo de carga e da entrada de renováveis. Onde não há linhas para trazer energia barata, o sistema é forçado a usar geração mais cara e próxima, elevando tarifas.

Para autoridades locais, a lição é clara. Vincular aprovações a contrapartidas de backbone de transmissão, subestações e medidas de mitigação antes da obra civil. Para operadores, priorizar filas de interconexão para reforços que habilitam múltiplos sites reduz custo sistêmico e ruído político.

O movimento das big techs, energia dedicada e verticalização

A resposta corporativa evolui rápido. Uma das tendências é verticalizar parte do suprimento, comprando desenvolvedoras de infraestrutura energética e de data centers para acelerar projetos com energia dedicada. Em dezembro de 2025, foi anunciada a aquisição da Intersect por um grande grupo de tecnologia por 4,75 bilhões de dólares, com foco em amarrar capacidade elétrica e acelerar implantação de campus nos EUA. O recado é simples, sem energia disponível, não há IA em escala.

Outra frente é a flexibilização regulatória para co-localizar geração, incluindo térmicas, renováveis com storage e, no horizonte, nuclear avançada. O FERC abriu processos específicos para tratar co-localização no PJM, e discussões sobre contratos de longo prazo, microrredes e backstops de confiabilidade tendem a ganhar tração.

No curto prazo, porém, soluções emergenciais como o retorno de usinas de pico e recordes em leilões de capacidade mostram que a conta está chegando com juros. Sem aceleração em linhas de transmissão e usinas de resposta rápida, o risco é travar a inovação ou repassar custos elevados ao consumidor.

![Rack de servidores e console]

Caminhos práticos, como equilibrar inovação e infraestrutura

Quatro atitudes mudam o jogo e tornam a pausa em novos data centers de IA menos provável e mais cirúrgica.

  1. Planejamento integrado de carga. Operadores como PJM mostram que quase todo o crescimento de pico até 2030 vem de data centers, isso pede mapas públicos por corredor de transmissão, prazos de conexão e contrapartidas obrigatórias por campus. Onde a fila de geração somar centenas de gigawatts, a priorização deve considerar o valor sistêmico do reforço.

  2. Métricas padronizadas e disclosure. Estados discutem exigir que data centers reportem eletricidade e água com granularidade suficiente para auditoria, um passo necessário para alinhar incentivos, metas de eficiência e fiscalização. Padrões nacionais, ainda que voluntários, reduziriam assimetria de informação e ruído político.

  3. Portfólio energético firme e limpo. A IEA mostra que metade do crescimento da demanda de data centers até 2035 pode ser atendida por renováveis com storage, enquanto gás e nuclear dão lastro. Isso precisa de PPAs com entrega física, storage local e oferta firme, com ambição para SMRs a partir de 2030.

  4. Água como KPI de licenciamento. Em áreas de estresse hídrico, adote metas máximas de galões por MWh de TI, condicionando incentivos a tecnologias de resfriamento de baixo consumo e reposição de bacias hidrográficas locais. Bons exemplos já surgem, de resfriamento sem água adicional por longos períodos a compromissos de reposição regional.

Reflexões e insights, onde a moratória faz sentido e onde atrapalha

A ideia de pausa em novos data centers de IA soa dura, mas funciona como alavanca política. Em mercados sem folga de transmissão, sem geração firme contratada e sem plano hídrico, uma moratória temporária pode ser o remédio para ordenar prioridades, acelerar obras estruturantes e exigir transparência.

Em contrapartida, travas amplas e indefinidas não resolvem gargalos técnicos. Onde há linhas, contratos firmes de energia e água sob controle, a economia de escala trazida por data centers pode ancorar novas renováveis, storage e até nuclear, reduzindo emissões e custos marginais com o tempo. A chave é amarrar benefícios a metas mensuráveis, não a slogans.

Conclusão

O pedido de Bernie Sanders, focado em pausa em novos data centers de IA, abre uma conversa necessária sobre quem paga a conta energética e hídrica do boom da IA e quem colhe os frutos financeiros. Os dados mais recentes mostram aumento acelerado do consumo elétrico e de água, concentração geográfica de impactos e redes pressionadas por falta de transmissão e geração firme. O risco é real, mas há instrumentos para mitigar.

O caminho maduro combina planejamento integrado, disclosure obrigatório, contrapartidas de infraestrutura e inovação em resfriamento e suprimento. Quando esses pilares estão no lugar, a necessidade de moratória diminui. Quando não estão, a pausa deixa de ser tabu e vira ferramenta de governança para uma transição digital que seja próspera, confiável e justa.

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