Fachada do prédio do Departamento de Justiça dos EUA em Washington, DC
Política de IA

Governo Trump apoia OpenAI no caso NYT, defende fair use

Departamento de Justiça entra no processo do New York Times contra a OpenAI e sustenta que treinar modelos de IA com textos protegidos pode ser uso justo, decisão com impacto direto em mídia, tech e criadores

Danilo Gato

Danilo Gato

Autor

3 de setembro de 2026
9 min de leitura

Introdução

Governo Trump apoia OpenAI no processo movido pelo New York Times e sustenta que o treinamento de modelos com textos protegidos pode se enquadrar em fair use. O ponto central, apresentado em 2 de setembro de 2026, é que restringir amplamente o treinamento de IA prejudicaria a inovação e o interesse nacional, argumento formalizado pelo Departamento de Justiça em uma manifestação no caso que corre na Corte do Distrito Sul de Nova York. (washingtonpost.com)

A disputa começou em 27 de dezembro de 2023, quando o New York Times processou Microsoft e OpenAI por suposta violação de direitos autorais, DMCA e outras alegações. Em 2026, a ação permanece ativa, com ajustes de pedidos, debates sobre memorizações de conteúdo e discussão jurídica sobre a natureza transformativa do treinamento de LLMs. (sec.gov)

Este artigo analisa o movimento do governo, os principais argumentos de fair use, o estágio processual, impactos para editoras, startups e equipes de produto, e cenários práticos de compliance e parcerias.

O que exatamente o governo argumentou

O Departamento de Justiça apresentou uma declaração de interesse a favor da OpenAI, defendendo que treinar LLMs com grandes corpora, inclusive com obras protegidas obtidas licitamente, pode ser considerado uso justo. A peça sustenta que LLMs transformam os dados em parâmetros estatísticos, e que proibir de forma ampla o treinamento sem licenças inviabilizaria avanços científicos, prosperidade econômica e competitividade dos EUA. (washingtonpost.com)

Segundo reportagens de veículos como AP, Reuters e Wired, o governo afirma que o fair use deve ser avaliado caso a caso, mas que a mera etapa de treinamento tende a ser compatível com os objetivos constitucionais de progresso das artes e ciências quando não há substituição de mercado direta. O sinal político é claro, já que a administração aponta risco sistêmico para a indústria de IA se a corte endossar a tese de que treinar sempre exige licenciamento. (apnews.com)

A cobertura do The Verge destaca a leitura estratégica do governo: preservar a prosperidade americana e evitar um precedente que inviabilize modelos fundacionais. O texto também contextualiza o uso crescente de “statements of interest” em litígios privados para alinhar política pública e jurisprudência. (theverge.com)

Em que pé está o processo NYT vs. OpenAI e Microsoft

O caso foi proposto em 27 de dezembro de 2023 no SDNY e, desde então, passou por intensas disputas processuais. Em 2026, documentos financeiros do NYT indicam movimentos para emendar partes da queixa, inclusive ajustes em alegações de contribuição, enquanto o litígio coletivo envolvendo outras redações segue apensado na mesma corte. Ainda não há decisão final sobre a espinha dorsal, o fair use no treinamento de LLMs. (sec.gov)

Análises independentes acompanham a linha do tempo e projetam que a definição de fair use no contexto jornalístico pode ir para decisões de mérito na segunda metade de 2026, com eventual julgamento em 2027 se as reivindicações sobreviverem. Isso mantém alta a incerteza para todos os agentes que treinam modelos com conteúdo editorial. (legalclarity.org)

Do lado da OpenAI, há uma página pública consolidando sua narrativa de que o treinamento em dados disponíveis publicamente é legal e que a empresa mantém parcerias formais com diversos grupos de mídia. Essa estratégia, de contratos seletivos enquanto defende o fair use estrutural, sugere um caminho híbrido de negócios e doutrina. (openai.com)

Como os fatores do fair use se aplicam ao treinamento de LLMs

  • Propósito e caráter do uso: o governo enxerga caráter transformativo, já que o modelo não reproduz artigos, e sim destila padrões linguísticos para gerar texto novo. A referência histórica mais citada é Authors Guild v. Google, em que a digitalização massiva para pesquisa foi considerada transformativa. O paralelismo não é perfeito, mas molda o debate. (cdn.openai.com)
  • Natureza da obra: jornalismo é factual, um ponto que tradicionalmente favorece usos justos. Porém, o NYT argumenta que há expressão autoral significativa e que a reprodução literal em alguns casos configura memorizações indevidas. (arxiv.org)
  • Quantidade e substancialidade: o treinamento envolve grandes volumes, o que pesa contra o uso justo na leitura tradicional. A defesa rebate que a ingestão integral é necessária para a função de aprendizado e que não visa substituição de assinaturas. (cdn.openai.com)
  • Efeito no mercado: o núcleo da disputa. Se a saída do modelo substitui o produto jornalístico, o fair use se enfraquece. O NYT alega prejuízos e erosão de valor, enquanto o governo afirma que proibir genericamente o treinamento causaria dano sistêmico superior ao ecossistema. (law360.com)

Exemplos reais, acordos e fricções no mercado

Enquanto litiga, a OpenAI fechou parcerias com editoras para licenciamento de conteúdo, um contraponto ao discurso puramente baseado em fair use. O site oficial lista acordos com grupos como AP, Axel Springer, Vox Media e outros, indicando que parte do mercado prefere segurança jurídica e receitas antecipadas a depender exclusivamente de precedentes judiciais. (openai.com)

O próprio governo citou arranjos voluntários como exemplos de convivência entre inovação e direitos autorais, inclusive lembrando que alguns veículos monetizam o acesso a arquivos ou disponibilizam dados sob licenças específicas. Essa convivência pragmática reduz o atrito em casos de alto risco reputacional. (washingtonpost.com)

Do outro lado, jornais e associações mantêm ações paralelas contra outras empresas de IA, e a indústria musical também intensificou processos, com novas queixas contra laboratórios por suposto uso de catálogos. Isso sinaliza que, mesmo com a manifestação do DOJ, a maré contenciosa segue elevada. (wired.com)

O que muda para equipes de produto, jurídico e dados

  • Due diligence de dados: mapear fontes, termos de uso, robots.txt históricos e licenças é obrigatório. Onde houver risco elevado, privilegiar dados com licença clara ou celebrar acordos, mantendo logs de ingestão e versões do dataset.
  • Mitigação de memorizações: incorporar técnicas de decontaminação, redução de regurgitação e filtros de alta similaridade para outputs que reproduzem trechos longos de obras protegidas. O risco processual aumenta quando há evidências de memorizações e cópias literais. (arxiv.org)
  • Alinhamento com negócio: se o produto concorre diretamente com o conteúdo de uma editora, a avaliação de efeito no mercado pesa. Parcerias, paywalls-respect, ou restrições de geração para domínios específicos podem reduzir fricção sem paralisar a inovação. (openai.com)
  • Governance: formalizar uma política de dados que traduza os quatro fatores de fair use, previna scraping de fontes com proibição explícita e estabeleça resposta rápida a reclamações, inclusive com bloqueios e retrainings quando necessário.

Cenários prováveis e a leitura estratégica para 2026–2027

  • Se a corte abraçar a tese do governo para o treinamento como etapa transformativa, a disputa migra para a camada de saída, com foco em memorizações e substituição de mercado. Espera-se maior pressão por acordos de licenciamento para arquivos premium e conteúdo com alto valor comercial, enquanto o core do treinamento permanece juridicamente viável. (washingtonpost.com)
  • Se prevalecer a visão do NYT de que a ingestão ampla não pode ser fair use por princípio, o setor enfrentará custos de licenciamento de base, com implicações especialmente pesadas para startups e pesquisa acadêmica. Haverá consolidação de players e possíveis pools de licenças setoriais para dados editoriais. (sec.gov)

Sede do Departamento de Justiça dos EUA, em Washington, DC

Como as big techs estão se posicionando

O contencioso NYT vs. OpenAI e Microsoft acontece em paralelo a outras disputas entre gigantes e parceiros. Em 2026, o noticiário mostra escalada de litígios envolvendo OpenAI e outras empresas, um pano de fundo que reforça o valor defensivo de um precedente favorável em fair use para o treinamento. (axios.com)

O movimento do governo também conversa com a ambição de política industrial em IA, onde o risco de travar o treinamento é visto como ameaça à competitividade global. Essa leitura, relatada por grandes jornais, se apoia em produtividade, segurança nacional e densidade de pesquisa. (washingtonpost.com)

O papel do The Verge e a síntese do momento

A cobertura do The Verge em 2 de setembro de 2026 registra o tom do documento governamental, a ênfase em prosperidade econômica e o uso reiterado de declarações de interesse para influenciar litígios. O texto reforça que este caso pode moldar o relacionamento estrutural entre redações e laboratórios de IA por anos. (theverge.com)

Logotipo da OpenAI

Aplicações práticas imediatas para o seu roadmap

  • Dados proprietários com valor comercial: se a startup depende de conteúdo altamente diferenciado de terceiros, busque licenças seletivas agora. O custo é menor do que uma pivotagem às pressas após uma liminar.
  • Avaliação de risco por domínio: classifique fontes em quatro níveis, de “livre e público” a “restrito e sensível”, e trate cada bucket com políticas específicas de coleta, retenção e remoção.
  • Guardrails de geração: implemente detectores de similaridade para bloquear respostas com sobreposição acima de um limiar definido com o jurídico, além de citações automáticas quando permitido por licença.
  • Transparência comercial: ofereça rotas de opt-out ou de revenue sharing para editores parceiros, especialmente se o produto impacta tráfego de páginas evergreen ou guias referenciais.

Reflexões e insights

O apoio do governo não resolve a questão, mas desloca a inércia do debate. O eixo jurídico provável é separar claramente o que é treinamento transformativo do que são saídas potencialmente substitutivas ou memorizadas. A indústria que internalizar essa distinção e operar com testes de mercado, filtros anti-regurgitação e acordos seletivos sairá à frente. (arxiv.org)

Outra lição é estratégica: acordos com editoras não negam o fair use, apenas reduzem risco de litígio nas fronteiras mais valiosas. O equilíbrio entre doutrina e contrato parece ser o caminho mais robusto para 2026 e 2027, enquanto a jurisprudência é consolidada. (openai.com)

Conclusão

O Governo Trump apoia OpenAI e tenta ancorar no Judiciário uma visão de fair use compatível com o treinamento de LLMs. A mensagem é que paralisar essa etapa afetaria a produtividade, a pesquisa e a posição competitiva dos EUA. Isso não encerra o caso, mas eleva a probabilidade de um padrão regulatório onde o treinamento é lícito e as saídas são o foco do controle. (washingtonpost.com)

Para empresas e equipes técnicas, a orientação prática é clara. Componha um stack de compliance que una governança de dados, mitigação de memorizações e acordos estratégicos. A combinação de prudência legal e ambição tecnológica é o que permitirá capturar os ganhos da IA generativa sem colidir com a jurisprudência que está prestes a nascer. (sec.gov)

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