Microsoft apresenta Project Solara, plataforma agent-first
A Microsoft revelou o Project Solara no Build 2026, uma plataforma chip to cloud com base AOSP e foco em agentes de IA. Conceitos de badge e desk inauguram a era agent-first para experiências empresariais.
Danilo Gato
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Introdução
Project Solara chegou como a peça que faltava na estratégia de agentes da Microsoft. Anunciado no Build 2026, o novo stack chip to cloud foi desenhado para dispositivos agent-first, isto é, experiências onde agentes de IA assumem o papel principal na interação, não os apps tradicionais. A Microsoft posiciona Solara como um sistema liminar, parte no dispositivo, parte na nuvem, com gestão corporativa nativa e interfaces geradas sob demanda.
A importância é direta. Em vez de adaptar aplicativos a cada novo formato de hardware, Solara aposta em uma interface just in time, modelos de orquestração entre múltiplos agentes e um alicerce Android Open Source Project, o que acelera drivers, compatibilidade e o time-to-market de novos form factors. O anúncio veio acompanhado de dois designs de referência, um badge vestível e um dispositivo de mesa, além de parcerias com Qualcomm e MediaTek e pilotos privados com grandes empresas.
O que é o Project Solara e por que importa
Solara é uma plataforma de computação voltada a “dispositivos agent-first”. Em vez de abrir app por app, o usuário expressa intenção, e agentes orquestram ações entre serviços locais e em nuvem. A Microsoft descreve Solara como o passo além do assistente dentro do app, migrando para agentes que operam fora dos aplicativos, atravessando fluxos de trabalho, identidade e diferentes dispositivos.
Esse modelo propõe reduzir o custo histórico de criar novos formatos de computadores. Ao deslocar a lógica de interface para agentes e componentes declarativos, menos camadas precisam ser reescritas sempre que surge uma nova categoria de dispositivo. Resultado prático, mais especialização, mais contexto, e ferramentas mais próximas do ponto de valor, sem a penalidade de reimplementar pilhas inteiras.
Arquitetura chip to cloud, base AOSP e just in time UI
Solara combina um runtime leve no dispositivo com serviços e estado estendidos no Azure. O stack de dispositivo usa o Microsoft Device Ecosystem Platform, baseado em AOSP, e integra identidade corporativa via Entra ID, gestão via Intune e recursos de segurança, além de uma “shell de agente” que coordena múltiplos agentes. Essa escolha técnica oferece compatibilidade de drivers e acelera a integração de sensores, conectividade e biometria.
O modelo de interface just in time permite que o mesmo agente gere saídas diferentes conforme o contexto e o tamanho de tela. Hoje, isso se apoia em abordagens semi estruturadas como Adaptive Cards e tipos de conteúdo conhecidos. Ao evoluir, a Microsoft mira interfaces mais dinâmicas, porém deixa claro que uma UI 100 por cento generativa ainda não é realidade.
Do lado da nuvem, o desenho abraça um mundo de múltiplos agentes, com mecanismos de despacho e coordenação para ativar o agente certo no momento certo, respeitando fronteiras de dados, domínios e identidades. Essa orquestração é essencial quando empresas combinam Copilot, agentes internos e soluções de parceiros em fluxos que cruzam sistemas.
Designs de referência, badge e desk, e o que eles fazem
A Microsoft mostrou dois conceitos para ilustrar como experiências agent-first podem se manifestar em hardware real. O Badge Concept é um vestível do tamanho de um crachá corporativo, sempre conectado, com tela sensível ao toque, microfones de campo distante, alto falante, câmera lateral, leitura biométrica via Hello for Business, conectividade Wi Fi, Bluetooth, GNSS e 5G, alimentado por silício Qualcomm para wearables. Caso de uso, acesso por toque a um agente de prioridades, gravação de conversas de corredor com transcrição e consultas rápidas por voz.
![Badge Concept do Project Solara]
O Desk Concept é um companheiro de mesa compacto com tela sensível ao toque, sensores de presença UWB, biometria facial Hello for Business, microfones e alto falante, portas USB C e conectividade sem fio, construído sobre silício MediaTek IoT. Pode operar como acesso ambiente às tarefas do agente durante o trabalho e, conectado a um display externo, atuar como cliente Windows 365, unindo experiência agent-first e thin client corporativo.
![Desk Concept do Project Solara]
Os conceitos não definem os limites do ecossistema, funcionam como catalisadores para OEMs e parceiros criarem variações portáteis, de uso fixo, wearables e hiper móveis. A aposta é que a flexibilidade de UI e a orquestração de agentes diminuam a dependência de frameworks de app e de navegadores tradicionais, liberando o design industrial para priorizar contexto e tarefa.
Parceiros de silício e pilotos com empresas de varejo e saúde
Qualcomm e MediaTek são os primeiros parceiros de silício. Com a Qualcomm, a Microsoft trabalhou em um design portátil, alinhado ao histórico da empresa em wearables e eficiência energética para IA. Com a MediaTek, colaborou em um design estacionário, aproveitando a capilaridade da marca no ecossistema de IoT.
Do lado da validação no mundo real, a Microsoft iniciou programas internos com centenas de colaboradores e planeja pilotos privados com AccuWeather, Best Buy, CVS Health, Levi’s e Target, entre outras. Essas iniciativas colocam Solara em cenários de varejo, atendimento e serviços, onde agentes podem condensar fluxos de trabalho, reduzir alternância entre apps e acelerar follow ups.
Além dos anúncios próprios, a Qualcomm publicou um registro público da conversa entre Cristiano Amon e Satya Nadella durante o Build 2026, reforçando a visão de experiências mais pessoais, conscientes e contínuas entre dispositivos, com agentes como interface primária.
Ferramentas de desenvolvimento, padrões e como construir para Solara

Para desenvolvedores, Solara não chega vazio. A Microsoft mapeia caminhos para estender o Microsoft 365 Copilot com agentes declarativos ou customizados, usar o Copilot Studio, e construir com o Microsoft 365 Agents SDK e o Microsoft Agent Framework. A mensagem, quem já cria agentes nesse ecossistema está no rumo certo para levá los a novos form factors.
No âmbito de governança e interoperabilidade, a estratégia da Microsoft dialoga com o avanço de padrões e interfaces para ferramentas de agentes, como MCP para interoperabilidade de agentes e A2A para delegação entre agentes, tema que ocupou a agenda das últimas edições do Build e fez a ponte entre apps com IA e sistemas multiagente de produção. A cobertura prévia do evento destacou a consolidação de fundações como Foundry e o amadurecimento de SDKs unificados para agentes.
Aplicando ao Solara, o desenho de UI just in time guarda compatibilidade com Adaptive Cards, reduzindo esforço de renderização manual e abrindo margem para experiências que variam de um badge a um display de mesa, sem refazer telas para cada diagonal. Na prática, ciclos de entrega mais curtos e menos retrabalho visual quando um agente precisa se adequar a outro formato de dispositivo.
Segurança, gestão e confiança por padrão
Solara nasce com identidade corporativa, gestão e segurança como fundação. Entra ID fornece autenticação, Hello for Business habilita biometria, Intune permite que TI administre dispositivos como PCs e smartphones. Há ênfase em controles físicos de privacidade, como mute de microfone e indicadores claros de gravação e escuta, mais boot verificável e proteção de cadeia. O objetivo é atender requisitos de governança em setores regulados.
No plano de runtime de agentes, a visão de um “mundo de múltiplos agentes” impõe fronteiras entre dados, domínios e organizações. A Microsoft sinaliza mecanismos para despacho e gestão de tarefas multiagente, articulando agentes de terceiros, internos e Copilot em experiências coerentes. Esse é o elo entre produtividade real e segurança operacional, essencial quando agentes passam a agir entre sistemas críticos.
Como isso muda o roadmap de dispositivos e apps
A mudança é estrutural. Se agentes são a unidade de interação, a pressão para sustentar um ecossistema de apps por formato de hardware diminui. Novos dispositivos podem emergir com foco em tarefas e ambientes, não em prateleiras de aplicativos. O trade-off, tudo depende da maturidade de orquestração, da qualidade das ferramentas de desenvolvimento e de como empresas medem produtividade quando a interação deixa de ser app centric.
Há também um impacto competitivo. Ao adotar AOSP como base de dispositivo, a Microsoft evita duplicar esforços no nível de drivers e compatibilidade, concentra energia na camada de agentes, segurança e gestão, e corre para não repetir atrasos do passado em mobile. A cobertura internacional destacou que Solara é a primeira investida da empresa em um sistema e plataforma de hardware desenhados em torno de agentes, não de apps.
Aplicações práticas, onde agentes brilham primeiro
Cenários corporativos com rotina intensa e informação distribuída. Em varejo, um agente pode priorizar tarefas em tempo real, combinar estoque, promoções e atendimento, e registrar ações sem alternar entre apps. Em saúde, um agente de mesa pode capturar interações, recuperar dados relevantes e sugerir próximos passos, preservando contexto do prontuário. Em desenvolvimento de software, integrações com GitHub Copilot mantêm estado do projeto e permitem comandos por voz para acelerar resolução de bugs e revisões. Esses exemplos já aparecem no material oficial e na cobertura de lançamento.
Limitações e perguntas em aberto
Interface 100 por cento generativa ainda é horizonte. A Microsoft afirma que, hoje, opera na metade do caminho entre design responsivo e geração irrestrita, e que evoluirá com o avanço de modelos. Além disso, a adoção de uma nova categoria de dispositivo enfrenta a realidade de procurement, gestão de inventário e mudança cultural nas empresas. O programa de pilotos com Best Buy, CVS Health, Levi’s e Target deve esclarecer ROI, ergonomia e métricas de produtividade.
Outro ponto, o ecossistema de ferramentas precisará provar que multiagente é confiável do ponto de vista de governança, avaliação e auditoria. O Build 2026 evidenciou um esforço amplo da Microsoft em padrões, governança e fundações para agentes, do Foundry às especificações e kits de confiança, sinal de que o tema está no centro do roadmap.
O que fazer agora, passos acionáveis para times técnicos
- Pilotar um agente com Adaptive Cards e variáveis de contexto que permitam renderização em pelo menos dois layouts, por exemplo, um cartão compacto de resumo e uma página detalhada. Esse exercício força a pensar em just in time UI desde o início.
- Revisar governança de identidade e dispositivo, garantindo prontidão de Entra ID e Intune para uma frota mista que inclua badges e dispositivos de mesa, com políticas de privacidade claras para sensores e microfones.
- Adotar o Microsoft 365 Agents SDK ou o Microsoft Agent Framework para criar agentes modulares, pensando desde já em despacho multiagente e limites de escopo de dados.
- Medir produtividade por tarefa concluída, não por tempo de app em foco. Essa mudança de métrica alinha avaliação de impacto ao paradigma agent-first.
Conclusão
Project Solara sintetiza a tese da Microsoft de que agentes são a próxima plataforma. Ao combinar uma base AOSP com gestão corporativa, segurança e UI just in time, abre caminho para que experiências de agente escapem do PC e do smartphone e habitem formatos mais específicos, próximos da tarefa e do ambiente. A força do anúncio está menos no hardware conceitual e mais no arco de ecossistema e padrões que o cercam.
Se a adoção corporativa confirmar ganhos de produtividade e redução de atrito, Solara pode normalizar uma década de inovação em forma factors orientados por agentes, alinhando chips, nuvem e ferramentas. O próximo ano de pilotos com parceiros e OEMs dirá até onde essa visão se sustenta fora do palco do Build, mas o recado é claro, agentes não são uma camada, são o sistema.
