Console de mixagem em estúdio com iluminação azul, botões e potenciômetros em destaque
Negócios da Música

Sindicato de músicos processa UMG e Warner por acordos com Suno e Udio

A disputa entre o sindicato de músicos e as majors UMG e WMG expõe a batalha central da era da IA musical, dinheiro de licenças, transparência sobre dados de treino e quem deve ser remunerado.

Danilo Gato

Danilo Gato

Autor

10 de junho de 2026
11 min de leitura

Introdução

O sindicato de músicos dos Estados Unidos, a American Federation of Musicians, entrou com um processo contra a UMG e a Warner Music no dia 5 de junho de 2026, acusando as majors de licenciar gravações feitas por seus membros para as plataformas de IA Suno e Udio sem compensação ou crédito, um ponto que o sindicato sustenta violar a cláusula de “novo uso” do acordo coletivo. A própria denúncia foi publicada e detalha a tese jurídica e o histórico das tratativas com as empresas, além de situar os acordos firmados pelas majors com as startups de IA no fim de 2025.

O assunto ganhou destaque porque toca na ferida do mercado, quem paga a conta quando catálogos entram no motor de IA. Music Business Worldwide reportou a ação em 8 de junho de 2026, citando posições públicas da UMG e da WMG e lembrando que ambas haviam feito acordos com Udio e, no caso da WMG, também com a Suno, acordos celebrados após processos por infração de direitos abertos em 2024.

O foco aqui é claro, sindicato de músicos processa UMG e Warner. No centro da disputa, remuneração de músicos de sessão, transparência sobre quais gravações foram licenciadas e como serão tratados os fluxos de receita derivados de futuros lançamentos de produtos de IA que usem esses dados.

O que está sendo disputado, em termos simples

A ação da AFM se ancora na cláusula de “novo uso” do acordo coletivo de gravação, que exige notificação e pagamento aos músicos quando uma gravação é explorada comercialmente de forma nova. O sindicato argumenta que treinar e operar modelos generativos usando as performances gravadas de seus membros é uma nova exploração, logo, deveria disparar pagamentos e crédito. A queixa protocolada no tribunal do Distrito Sul de Nova York expõe essa tese com detalhes e pede também uma ordem para que as majors divulguem quais faixas foram licenciadas.

Do outro lado, UMG e WMG defendem que vêm estabelecendo “acordos responsáveis de IA” e que o tema deve ser resolvido à mesa de negociação coletiva, não no litígio, posições divulgadas em notas públicas citadas pela imprensa.

Há ainda um contexto crítico, os acordos com as plataformas de IA foram fechados depois de as majors processarem Suno e Udio por “violação massiva” de direitos autorais em 2024, processos capitaneados pela RIAA. Esse histórico é importante porque mostra a virada, da briga judicial para a licença comercial, com a AFM agora questionando como o dinheiro e as obrigações desses deals chegam aos músicos de sessão.

Linha do tempo e fatos essenciais

  • 24 de junho de 2024, as majors entram com processos de direitos autorais contra Suno e Udio, alegando cópia e ingestão em larga escala de fonogramas protegidos, a RIAA divulga comunicado qualificando os casos como “marcos” para IA responsável.
  • Final de outubro de 2025, a UMG anuncia acordo com a Udio, incluindo liquidação compensatória e licenças para uma nova plataforma de IA com lançamento previsto para 2026.
  • Novembro de 2025, a Warner fecha acordo com a Udio e, dias depois, anuncia um acordo e liquidação com a Suno, descrito como pioneiro.
  • 5 de junho de 2026, a AFM protocola a ação contra UMG e WMG em Nova York, pedindo indenizações e transparência sobre as gravações licenciadas. O texto da queixa está público.
  • 8 de junho de 2026, a Music Business Worldwide publica reportagem com as alegações e respostas das empresas.
  • 2 dias antes da ação, a Suno anuncia uma rodada de 400 milhões de dólares, avaliação de 5,4 bilhões, sublinhando a velocidade com que o capital está correndo para a IA musical.
  • Junho de 2026, cobertura adicional da imprensa especializada reforça o cerne do litígio, a aplicação da cláusula de novo uso e a discussão sobre repartição de receitas.

Quem é afetado agora, e quem paga depois

O impacto imediato recai sobre três grupos, músicos de sessão cobertos pelo acordo coletivo, selos e gravadoras que assinaram licenças com empresas de IA, startups de IA que dependem de dados de treino e de validação legal para operar em escala. A AFM sustenta que as majors teriam recebido valores por liquidações passadas e licenças prospectivas, enquanto negaram compartilhar receita e informações com os músicos, o que, na narrativa do sindicato, viola o acordo coletivo.

Do lado corporativo, UMG e WMG afirmam que estão “na vanguarda de proteger direitos e avançar interesses de artistas e compositores na era da IA”, além de estabelecer “guarda correntes” para um ecossistema saudável, argumentos que tentam enquadrar os acordos como pró artista. Essas posições foram reproduzidas em notas ao MBW e a outros veículos.

Para as empresas de IA, a relevância é dupla, o precedente comercial criado pelos acordos e a pressão crescente por transparência de dados de treino. Em 2026, um juiz chegou a derrubar uma medida de sigilo em parte do caso da Sony contra a Udio, lembrando que Sony permaneceu como a única major sem acordo com a Udio, o que mantém viva a via judicial clássica em paralelo ao caminho das licenças.

![Mesa de som em estúdio, iluminação azul]

O que significa “novo uso” no direito coletivo musical

“Novo uso” é o mecanismo contratual pensado para que músicos sejam remunerados quando uma gravação sai do escopo original e passa a ser explorada de modo diferente, por exemplo, quando uma faixa é licenciada para publicidade ou cinema. No entendimento da AFM, treinar e operar modelos generativos com performances registradas em fonogramas é uma exploração nova, portanto, gatilha pagamentos e créditos que a UMG e a WMG deveriam repassar aos instrumentistas e demais músicos cobertos. Essa argumentação está explícita no texto da queixa.

O tema ficará, em boa parte, na mesa do juiz, mas vale notar, quando as majors moveram as ações iniciais contra Suno e Udio em 2024, disseram ver “enorme potencial de abuso” se as ferramentas fossem desenvolvidas sem responsabilidade. A AFM usa essa própria retórica para sustentar que as empresas, ao assinarem as licenças, deveriam ter resguardado pagamentos a quem tocou nas gravações de treino.

Por que as licenças com IA viraram alvo

Ilustração do artigo

O motor da crítica é a assimetria, acordos fechados por quem controla catálogos e direitos principais, com dinheiro entrando no caixa das majors, enquanto a participação de músicos de sessão fica incerta. Esse é o ponto levantado também por entidades como a Music Artists Coalition, que, logo após o anúncio do acordo UMG Udio em 2025, cobrou mais clareza sobre a parte que chegaria aos artistas e como o consentimento funcionaria.

Há ainda um vetor financeiro, a escalada de capital em IA musical. A rodada bilionária da Suno deixa claro que a indústria aposta em produtos que podem transformar a criação e a produção musical. Esse dinheiro coloca pressão para acelerar o lançamento de plataformas licenciadas, o que torna urgente definir quem participa da divisão de receitas quando os dados de treino vêm de gravações feitas por instrumentistas contratados e orquestras.

Como as majors e a IA defendem seus movimentos

As majors sustentam duas ideias centrais. Primeiro, que os acordos de licença com IA são a forma responsável de guiar a tecnologia, evitando a zona cinzenta de fair use e criando um caminho de remuneração. Segundo, que as tratativas com o sindicato devem acontecer no âmbito da negociação coletiva, onde já existem precedentes de ajustes para novas mídias. As falas públicas da UMG e da WMG, reproduzidas pelo MBW e por outros veículos, ecoam essa linha.

Do lado das plataformas, a narrativa é de que os sistemas são transformativos e não memorizam obras específicas, posição já defendida por Suno desde 2024, quando respondeu às ações. Ainda que a tese jurídica de fair use para treino siga em disputa, o movimento de fechar acordos com as majors indica um caminho pragmático para operar sem paradas judiciais.

![Detalhe de faders acesos em console de áudio]

O que observar no processo da AFM, riscos e cenários

  • Transparência sobre datasets, a AFM pede que UMG e WMG revelem quais gravações de seus membros foram licenciadas para as empresas de IA, ponto sensível porque abre uma janela sobre como catálogos são fracionados entre treino retrospectivo e licenças prospectivas. A resolução desse pedido pode criar um padrão de disclosure para acordos futuros.
  • Dinâmica com a Sony, que ainda litiga contra a Udio, após a UMG e a WMG terem saído por acordo, o que mantém vivo o teste judicial sobre escopo e publicidade de dados, inclusive após decisão que derrubou parte do sigilo no caso. O desfecho nessa frente pode influenciar a percepção de risco dos contratos com IA.
  • Termos de repartição, as próximas semanas devem trazer mais pressão pública por termos claros de repartição de receitas de IA, especialmente para músicos de sessão, que nem sempre têm as mesmas proteções contratuais de artistas principais. Essa cobrança já aparece em posicionamentos públicos desde 2025.

Aplicações práticas, como rótulos independentes e estúdios podem agir hoje

  • Auditoria de repertório, mapear fonogramas com participação de músicos de sessão e contratos associados, preparando uma matriz de “novo uso” para eventuais licenças de IA, com faixas, músicos e percentuais devidos. Esse tipo de inventário reduz risco e acelera negociações coletivas.
  • Cláusulas de transparência, ao negociar com empresas de IA, incluir anexos que listem faixas licenciadas, períodos, usos permitidos, relatórios periódicos e métricas de desempenho do produto de IA, com gatilhos de auditoria. A ação da AFM mostra que a falta de informação vira passivo jurídico.
  • Rateios e adiantamentos condicionados, criar pools específicos para “uso em IA”, com regras de distribuição que contemplem músicos de sessão, e prever adiantamentos condicionados à entrega de relatórios de dataset e KPIs das plataformas licenciadas.
  • Comunicação com sindicatos, manter um canal proativo com entidades de classe para alinhar interpretações de novo uso e evitar que a pauta estoure em litígios públicos, que tendem a encarecer o custo regulatório e reputacional.

Por que isso importa além da música

Os casos Suno e Udio são peças de um xadrez mais amplo sobre treino de IA e direitos autorais, uma discussão que afeta texto, imagem, código e vídeo. O que sair de Nova York e Boston sobre música pode irradiar para outros segmentos criativos. A própria RIAA já qualificava as ações de 2024 como marcos, porque atacavam a tese de fair use em escala industrial. A combinação de acordos comerciais com litígios em aberto é o palco onde a indústria vai testar regras e preços.

Uma camada política também começa a se mover, há iniciativas legislativas recentes que tratam de poder de barganha de músicos frente a streamings e empresas de IA, sinal de que o tema está migrando da jurisprudência para o texto de lei. Isso influencia prazos, previsibilidade e, em última instância, o custo de capital para qualquer venture em IA musical.

O que penso sobre o equilíbrio possível

Vejo um novo triângulo contratual se formando, catálogo, sindicato, plataforma. Os acordos de 2025 mostraram que as majors querem jogar no tabuleiro da IA, mas o processo da AFM deixa evidente que, sem uma camada robusta de disclosure e repartição, a conta política e jurídica volta para a mesa. Um caminho factível é tornar obrigatória a matriz de novo uso, com relatórios de datasets, faixas, sessões e créditos, atrelada a um pool de receitas de IA auditável. Isso tira o litígio do piloto automático e acelera a adoção segura das ferramentas.

Outro ponto, a pressão competitiva não vai diminuir. Com a Suno avaliada em 5,4 bilhões de dólares, esperar uma definição judicial ampla de fair use pode custar anos e market share. As licenças são o atalho, mas precisam vir com governança e métricas, algo como ISRCs e identificadores técnicos conectados a registros de treino e a uma camada de atribuição, para que os fluxos de caixa cheguem a quem performou.

Conclusão

O processo da AFM contra UMG e WMG sintetiza o dilema central da música na era da IA, a tecnologia avança mais rápido do que os contratos, e os acordos fechados entre empresas pressionam para que sindicatos e criadores entrem no rateio com regras claras. Os fatos mais recentes, a queixa protocolada em 5 de junho de 2026, as respostas públicas das majors e o histórico de processos iniciados em 2024, ajudam a entender por que a disputa não é apenas jurídica, é também sobre confiança e legitimidade.

O desfecho pode abrir um roteiro replicável, licenças com relatórios de datasets e pools de IA auditáveis, negociação coletiva com cláusulas específicas para treino e geração, mais transparência para todos os lados. Quem se adiantar nesse desenho, selos, plataformas e criadores, tende a colher a eficiência de um mercado que valoriza clareza de regras, previsibilidade de pagamentos e respeito ao trabalho de quem faz a música acontecer.

Tags

Direitos AutoraisInteligência ArtificialIndústria Fonográfica