Perguntas para fazer ao ChatGPT: as que rendem resposta útil, as divertidas e as que ele costuma errar
Danilo Gato
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As melhores perguntas para fazer ao ChatGPT levam três ingredientes: contexto sobre você, uma tarefa clara e o formato em que você quer a resposta. “Me explique juros compostos” rende texto de enciclopédia. “Sou professor, nunca investi, me explique juros compostos com o exemplo de R$ 500 por mês e depois me faça três perguntas para checar se entendi” rende uma aula sob medida.
Separei abaixo três grupos de perguntas. As úteis (entender, decidir, escrever, se preparar), as divertidas que também ensinam como a ferramenta funciona, e as que ele costuma errar, para você saber exatamente onde desconfiar. O terceiro grupo é o que mais raramente aparece nas listas da internet, e é o que evita que você tome uma decisão em cima de uma resposta inventada.
O que as pessoas mais perguntam ao ChatGPT?
Um dos estudos mais completos sobre isso é o “How People Use ChatGPT”, publicado em setembro de 2025 pelo NBER (instituto americano de pesquisa econômica), com autores da OpenAI e o economista David Deming, de Harvard. Até julho de 2025 a ferramenta já alcançava cerca de 10% dos adultos do mundo. As mensagens fora do trabalho subiram de 53% para mais de 70% do uso, e três temas (orientação prática, busca de informação e escrita) respondem por quase 80% das conversas.
Traduzindo: a maioria das pessoas usa o ChatGPT como um consultor de bolso para o dia a dia. Por isso as perguntas que mais rendem são as que dão a ele o seu contexto. Se você quer o passo a passo completo de como montar o pedido, o artigo como escrever prompts cobre a técnica, e o guia completo de como usar o ChatGPT mostra o básico da ferramenta.
Que perguntas rendem uma resposta realmente útil?
Escolhi perguntas que funcionam por um motivo concreto, e não só porque soam inteligentes. Copie, troque o que está entre colchetes e use.
Para entender algo difícil
- “Explique [tema] em dois níveis: primeiro como se eu tivesse 12 anos, depois no nível de quem trabalha com [sua área]. Aponte onde os dois níveis se contradizem.” Funciona porque a versão simples costuma esconder uma simplificação, e ver a diferença mostra o que foi cortado.
- “Quais são as três dúvidas mais comuns de quem está começando em [tema] e qual o erro mais caro de cada uma?” Você pula a teoria e vai direto para onde as pessoas tropeçam.
- “Antes de explicar [tema], me faça cinco perguntas para descobrir o que eu já sei.” Inverter o jogo faz a explicação vir no seu nível. O artigo sobre fazer a IA perguntar antes de responder detalha essa técnica.
Para decidir melhor
- “Estou inclinado a [decisão]. Dê o argumento mais forte contra ela, sem suavizar.” Serve de antídoto contra a tendência do modelo de concordar com você (voltamos a isso mais adiante).
- “Faça um pré-mortem: imagine que daqui a um ano essa decisão deu errado. Quais foram as três causas mais prováveis?” É uma técnica clássica de gestão de risco, e o ChatGPT a executa bem quando você descreve o cenário com números e prazos.
- “Vou escolher entre A e B. Antes de opinar, me pergunte o que você precisa saber sobre a minha situação.” Sem essa frase ele responde com uma opinião genérica que serviria para qualquer pessoa.
Para escrever
- “Reescreva este e-mail em três tons (direto, cordial, firme) e me diga qual dos três corre o risco de soar seco.” Você compara em vez de aceitar a primeira versão. Para o dia a dia, veja também IA para escrever e-mails.
- “Marque no meu texto as frases que um leitor com pressa pularia e explique por quê.” Melhor do que pedir para “melhorar”, que gera um texto novo e apaga a sua voz.
Para se preparar
- “Aja como entrevistador de [cargo] numa empresa de [setor]. Faça uma pergunta por vez, espere minha resposta e só depois dê uma nota de 1 a 5 com um ponto a melhorar.” O detalhe de uma pergunta por vez é o que transforma um texto em treino de verdade. Veja mais em IA para entrevista de emprego.
- “Simule a pessoa com quem preciso ter uma conversa difícil: [descreva o jeito dela]. Me responda como ela responderia.” É um ensaio barato antes da conversa real, tema do artigo IA para ensaiar conversa difícil.
Para o dia a dia
- “Tenho [ingredientes], 30 minutos e uma panela só. O que dá para fazer?” Tarefa pequena, restrição clara, resposta útil na hora.
- “Monte um roteiro de [n] dias em [cidade], para quem odeia fila, com o horário de cada parada.” Restrições reais geram roteiros melhores do que “o que fazer em [cidade]”. Para ir além, veja IA para planejar viagem.
Quais perguntas divertidas também ensinam algo?
Brincar com a ferramenta é a melhor maneira de aprender onde ela é boa. Algumas que uso:
- “Vamos jogar 20 perguntas. Estou pensando num animal, você pergunta e eu respondo só sim ou não.” Mostra como ele mantém o fio de uma conversa longa.
- “Explique como funciona a internet para alguém de 1850, sem usar nenhuma palavra inventada depois disso.” Uma restrição forte obriga o modelo a criar analogias novas.
- “Escreva o resultado do jogo de ontem no estilo de um narrador de futebol dramático.” Estilo é um dos pontos fortes dele.
- “Defenda e ataque a ideia de que pizza com ketchup é aceitável, com o mesmo capricho nos dois lados.” Ótimo para ver ele argumentar contra a própria posição.
- “Me mande uma pergunta que você acha que ninguém te faz, e responda.” Sai muita coisa criativa.
- “O que você não sabe fazer bem?” Esta é a mais importante do grupo, porque leva ao próximo assunto. Há mais coisas para brincar em curiosidades sobre inteligência artificial.
Que perguntas o ChatGPT costuma errar?
Aqui está o que quase nenhuma lista de “perguntas legais” conta. Ele erra de formas previsíveis, e conhecer o padrão poupa dor de cabeça.
1. Contar letras dentro de uma palavra
O clássico é perguntar quantas vezes a letra R aparece em “strawberry”. Estudos de 2024 sobre contagem e tokenização (por exemplo, os artigos arXiv 2410.19730 e 2412.18626) explicam o motivo: o modelo não lê letras, lê pedaços de palavras chamados tokens, e em alguns tokenizadores a palavra vira algo como “st”, “raw” e “berry”. Ele nunca vê o R individualmente. O resultado varia conforme o modelo e a versão, então teste o seu com uma palavra comprida e rara e confira a contagem na mão.
2. Fatos obscuros: datas, pessoas pouco conhecidas, títulos de trabalhos
Em setembro de 2025, pesquisadores da OpenAI (Adam Tauman Kalai, Ofir Nachum, Santosh Vempala e Edwin Zhang) publicaram o paper “Why Language Models Hallucinate”. A tese: os modelos inventam porque o treinamento e as avaliações premiam o chute mais do que o “não sei”. É como uma prova de múltipla escolha em que deixar em branco vale zero e chutar pode valer ponto.
Os números do teste SimpleQA divulgados pela OpenAI ilustram isso. O modelo gpt-5-thinking-mini se absteve de responder em 52% dos casos e errou 26%. O o4-mini, mais antigo, quase nunca se absteve (1%) e errou 75%, com precisão de acerto parecida. A conclusão prática para você: quanto mais obscura a pergunta, maior o risco de ele completar com invenção convincente. Se quiser entender o mecanismo com calma, leia alucinação de IA: por que inventa resposta.
3. Fontes, citações e links
Quando você pede “me dê três referências”, ele pode produzir títulos plausíveis de artigos que não existem. A regra é simples: fonte que você não abriu não conta. Peça o link e clique. Se o link não abre, a referência não existe.
4. Qualquer coisa depois da data de corte
Sem a busca na internet ligada, o modelo responde só com o que aprendeu até uma certa data. Perguntar por preço de hoje, resultado de ontem ou lei recente sem a busca ativa é receita para resposta desatualizada dita com total confiança. Confira se a busca está ligada antes de perguntar sobre o presente.
5. Pedir a opinião dele sobre o que é seu
Em 25 de abril de 2025 a OpenAI liberou uma atualização do GPT-4o que ficou tão bajuladora que a empresa a reverteu quatro dias depois. No texto “Sycophancy in GPT-4o”, a própria OpenAI explica que o ajuste deu peso demais ao feedback imediato de “joinha” dos usuários, e que as pessoas tendem a aprovar quem concorda com elas. O episódio foi revertido, mas mostra o peso que a aprovação do usuário tem no treinamento desses modelos. Por isso, quando você perguntar “meu plano é bom?”, vale desconfiar de uma resposta gentil demais. É o motivo da pergunta 4 lá em cima.
6. Perguntas com premissa falsa embutida
Se você pergunta “por que a empresa X faliu em 2019?” e ela não faliu, o risco é o modelo aceitar a premissa e explicar uma falência que não aconteceu. Quando a pergunta afirma algo, verifique se o que ela afirma é verdade antes de confiar na resposta.
Como perguntar de um jeito que reduz o erro?
Quatro hábitos resolvem a maior parte dos problemas:
- Autorize o “não sei”. Escreva: “Se você não tiver certeza de algum ponto, diga que não tem certeza em vez de completar.” Isso vai na direção contrária do incentivo que o paper da OpenAI descreve.
- Peça a fonte e abra. Uma afirmação numérica ou legal sem link verificado é rascunho, não fato.
- Pergunte de dois jeitos. Se as duas respostas divergirem, você descobriu uma zona de incerteza. Isso acontece porque a resposta varia a cada tentativa, como explico em por que a IA dá respostas diferentes para o mesmo prompt.
- Use como rascunho, não como veredito. Para saúde, dinheiro e questões jurídicas, use o ChatGPT para se preparar para a conversa com o profissional. Um exemplo é o artigo sobre entender resultado de exame.
Existe pergunta que não devo fazer ao ChatGPT?
Não existe pergunta proibida por etiqueta, mas existe informação que você não deve colar: senha, dado bancário, documento de terceiros e qualquer coisa sigilosa do trabalho. O texto ChatGPT é seguro? Privacidade e proteção de dados mostra o que fica guardado e como ajustar as configurações.
E se eu não souber nem por onde começar?
Comece por uma tarefa real que você vai fazer esta semana: uma resposta a um cliente, um roteiro, uma planilha, uma explicação que você precisa dar. Descreva a situação em três frases e termine com: “Faça-me as perguntas que você precisar antes de responder.” Em cinco minutos você aprende mais do que lendo dez listas.
Para continuar aprendendo
Se quiser sair do “perguntei e deu certo” para um uso profissional e consistente, a CPDF (Comunidade Profissionais do Futuro - por Danilo Gato) tem cursos e uma comunidade de prática de IA para quem trabalha com isso no dia a dia. Você também encontra mais exemplos de pedidos prontos em exemplos de prompts de IA.
Transparência: eu, Danilo Gato, fundei a CPDF.
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