Redação sobre inteligência artificial: repertório sociocultural pronto para o ENEM e o vestibular
Danilo Gato
Autor
Resposta rápida
Para uma redação do ENEM ou de vestibular que toque em inteligência artificial, o repertório sociocultural que mais rende reúne quatro tipos de fonte: dados de pesquisa (a TIC Educação e a TIC Domicílios, do Cetic.br, mostram quantos brasileiros já usam IA e quem fica de fora), leis (LGPD, PL 2338/2023, Lei 15.123/2025 e o ECA Digital), autores (Byung-Chul Han, Zuboff, Harari, Hans Jonas, Cathy O’Neil) e obras (Ex Machina, Ela, Coded Bias, Black Mirror, Eu, Robô). O que separa uma citação boa de uma decorada é a conexão: cada referência precisa provar um ponto do seu argumento. Abaixo você encontra a lista pronta, organizada por tema, com o jeito certo de encaixar cada item.
Sou o Danilo Gato, e aqui na CPDF (Comunidade Profissionais do Futuro - por Danilo Gato) a gente vê todo dia como as pessoas usam IA para estudar. Conferi cada dado e cada lei desta página nas fontes oficiais, para você levar material de verdade e não uma lista de nomes soltos.
Qual é o erro que o Inep chama de “repertório de bolso”?
O Inep publicou em 18 de setembro de 2026 a Cartilha do Participante da Redação do Enem 2026, e ela traz uma advertência que vale para qualquer vestibular: evite o “repertório de bolso”. É a referência memorizada que o candidato leva pronta e enfia em qualquer tema, mesmo quando não combina. A própria cartilha descreve como um repertório guardado no bolso para ser usado com qualquer tema, mesmo que não seja totalmente adequado.
Na Competência 2, o repertório precisa ser legitimado (vir de uma área do saber, como história, ciência, filosofia, direito, literatura), pertinente ao tema e usado de forma produtiva, isto é, servindo de argumento. Citar “Black Mirror” numa frase e seguir adiante não pontua. Explicar o que o episódio mostra e usar isso para sustentar a sua tese, sim.
As provas do ENEM 2026 acontecem nos domingos 8 e 15 de novembro, e a redação cai no primeiro dia. Ainda dá tempo de montar um repertório bom, mas ele precisa ser treinado, não só lido.
Que dados e pesquisas citar numa redação sobre inteligência artificial?
Dado com fonte nomeada é o repertório mais seguro, porque ninguém discute uma pesquisa oficial. Estes quatro eu conferi nas páginas do CGI.br e do Cetic.br:
| Dado | Fonte | Serve para argumentar |
|---|---|---|
| Sete em cada dez estudantes do Ensino Médio que usam internet já recorrem a IA generativa em pesquisas escolares (70%), mas só 32% dizem ter recebido orientação da escola sobre como usar | TIC Educação (15ª edição, dados de 2024, divulgada em 16/09/2025), Cetic.br/NIC.br | Educação, letramento digital, papel da escola |
| Cerca de 50 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais usam IA generativa, o que equivale a 32% dos usuários de internet | TIC Domicílios 2025 (divulgada em 09/12/2025), Cetic.br | Alcance da tecnologia, inclusão digital |
| O uso de IA vai de 69% na classe A a 16% nas classes D e E | TIC Domicílios 2025 | Desigualdade, exclusão digital |
| O uso vai de 59% entre quem tem Ensino Superior a 17% entre quem tem até o Ensino Fundamental. Entre quem não usa e tem até o Fundamental, 65% apontam a falta de habilidade como motivo | TIC Domicílios 2025 | Educação como porta de entrada, desigualdade de acesso |
Um quinto dado, internacional e muito citado, é o da pesquisadora Joy Buolamwini, do MIT, no estudo Gender Shades (2018, com Timnit Gebru). Ao testar sistemas comerciais de reconhecimento facial, ela encontrou taxa de erro de até 34,7% para mulheres negras, contra 0,8% para homens brancos. É o melhor exemplo pronto para falar de viés algorítmico, porque mostra que a máquina reproduz o preconceito de quem a treinou.
Um cuidado que faz diferença na correção: escreva a fonte por extenso e o ano (“segundo a TIC Educação, do Cetic.br, divulgada em 2025”). Percentual sem origem soa como invenção, e o corretor está treinado para desconfiar.
Que leis brasileiras posso usar como repertório sobre IA?
Lei é repertório legitimado por natureza e ainda ajuda na Competência 5, porque você pode propor que ela seja cumprida ou ampliada. As cinco que mais rendem:
- LGPD (Lei 13.709/2018). O artigo 20 garante ao titular o direito de pedir a revisão de decisões tomadas unicamente por tratamento automatizado de dados que afetem seus interesses. Serve para falar de algoritmos que negam crédito, emprego ou benefício sem explicação. Se quiser entender a lei por dentro, tenho um guia sobre IA e LGPD.
- Emenda Constitucional 115/2022. Colocou a proteção de dados pessoais entre os direitos fundamentais da Constituição (art. 5º, inciso LXXIX). É uma ótima ponte para qualquer tema de privacidade.
- PL 2338/2023, o marco legal da IA. Foi aprovado por unanimidade no Senado em 10 de dezembro de 2024 e segue em análise na Câmara dos Deputados. Adota o modelo de risco parecido com o do AI Act europeu e prevê sanções pesadas. Como o texto ainda tramita, escreva “projeto de lei em análise”, nunca “lei”. Expliquei os pontos principais em Regulamentação da IA no Brasil.
- Lei 15.123/2025. Sancionada em abril de 2025, aumenta em metade a pena da violência psicológica contra a mulher quando o crime usa IA ou qualquer recurso que altere imagem ou som da vítima, ou seja, os deepfakes. Para falar de desinformação e violência digital, é um exemplo recente e concreto.
- ECA Digital (Lei 15.211/2025). Sancionada em setembro de 2025 e em vigor desde 17 de março de 2026, exige verificação confiável de idade e mais proteção para crianças e adolescentes em plataformas. Combina com temas de juventude, saúde mental e educação.
Fora do Brasil, dois referenciais servem de contraponto: a Recomendação sobre a Ética da Inteligência Artificial da UNESCO (2021), adotada pelos 193 países-membros, e o AI Act da União Europeia, que entrou em vigor em 2024.
Que autores e livros citar sobre inteligência artificial?
Aqui está a seleção que eu usaria, com a ideia de cada um e o tema em que ela encaixa. Cite o autor, a obra e a ideia, nessa ordem.
| Autor e obra | Ideia central | Tema em que funciona |
|---|---|---|
| Norbert Wiener, Cibernética e sociedade (1950) | O pai da cibernética já alertava que entregar decisões a máquinas exige responsabilidade humana | Ética, responsabilidade |
| Alan Turing, “Computing Machinery and Intelligence” (1950) | Propôs a pergunta “as máquinas podem pensar?” e o teste que leva seu nome | Origem da IA, consciência |
| Hans Jonas, O princípio responsabilidade (1979) | Uma ética para a era tecnológica, em que o poder de agir da humanidade cresceu mais que a nossa capacidade de prever consequências | Ética, meio ambiente, regulação |
| Zygmunt Bauman, Modernidade líquida (2000) | Relações e vínculos frágeis, que combinam com a substituição de contato humano por interface | Saúde mental, relações sociais |
| Byung-Chul Han, Sociedade do cansaço (2010) | Vivemos a era do excesso de positividade, em que o sujeito se explora e se esgota sozinho | Trabalho, produtividade, saúde mental |
| Cathy O’Neil, Algoritmos de destruição em massa (2016) | Modelos matemáticos opacos ampliam desigualdades ao decidir crédito, emprego e justiça | Viés algorítmico, desigualdade |
| Shoshana Zuboff, A era do capitalismo de vigilância (2019) | Dados de comportamento viraram matéria-prima de lucro, muitas vezes sem consentimento real | Privacidade, manipulação |
| Yuval Noah Harari, 21 lições para o século 21 (2018) | A automação pode criar uma “classe inútil” de trabalhadores sem função econômica | Trabalho, desemprego |
| Paulo Freire, Pedagogia da autonomia (1996) | Ensinar não é transferir conhecimento, e o educador precisa formar autonomia | Educação, uso crítico da IA na escola |
Para vestibular de humanas, vale sempre ter um brasileiro na manga. Paulo Freire encaixa em qualquer tema de educação e tecnologia, e é o que eu usaria para sustentar que a escola precisa ensinar a usar IA, em vez de só proibir. O dado da TIC Educação (só 32% receberam orientação) fecha esse argumento com números.
Que filmes, séries e documentários citar?
Obra de ficção é repertório válido quando você a usa como ilustração de um problema real, e não como resumo de enredo. Três frases bastam: o que a obra mostra, qual problema real ela ilumina e como isso sustenta a sua tese.
- Ex Machina (2014, Alex Garland): uma IA manipula quem a testa para conquistar a liberdade. Serve para falar de manipulação emocional e limites éticos do desenvolvimento.
- Ela (Her, 2013, Spike Jonze): um homem se apaixona por um assistente virtual. Bom para solidão, relações mediadas por tecnologia e saúde mental.
- 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968, Stanley Kubrick): o computador HAL 9000 decide contra a tripulação. Clássico para falar de perda de controle sobre sistemas autônomos.
- Eu, Robô (Isaac Asimov, 1950): as Três Leis da Robótica mostram que regras simples falham em situações complexas. Combina com regulação.
- Black Mirror (série, 2011): cada episódio parte de uma tecnologia existente e leva a consequência ao extremo. Ideal para vigilância e reputação digital.
- Coded Bias (documentário, 2020): acompanha Joy Buolamwini e o viés racial no reconhecimento facial. É o par perfeito do dado do Gender Shades.
Se você quer uma lista maior, com o que cada obra discute, tenho dois guias: Filmes e documentários sobre inteligência artificial e Animes sobre inteligência artificial.
Como encaixar um repertório em um parágrafo de desenvolvimento?
Use uma estrutura de quatro movimentos, que cabe em 5 a 7 linhas: tese, repertório, explicação e fecho. A tese diz o problema. O repertório traz a prova. A explicação liga a prova à tese. O fecho amarra ao tema da proposta.
Exemplo, para um tema sobre desigualdade no acesso a tecnologias:
A exclusão digital agrava a desigualdade educacional brasileira na era da inteligência artificial. Segundo a TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, o uso de IA chega a 69% na classe A e cai para 16% nas classes D e E, o que significa que estudantes de famílias mais pobres chegam ao mercado e ao vestibular sem a fluência que outros já dominam. Nesse sentido, o pensamento de Paulo Freire sobre a educação como formação de autonomia ganha atualidade: sem orientação, a tecnologia amplia a distância que deveria reduzir. Portanto, garantir letramento digital na escola pública é condição para que a IA seja ferramenta de ascensão, e não de exclusão.
Repare que o parágrafo usa dois repertórios de naturezas diferentes (um dado e um autor), explica os dois e volta ao tema no fim. É isso que o Inep chama de uso produtivo.
Como montar a proposta de intervenção sobre IA na Competência 5?
A Competência 5 exige uma proposta que respeite os direitos humanos e traga cinco elementos: agente (quem executa), ação (o que fazer), meio ou modo (como), finalidade (para quê) e detalhamento (mais um dado sobre qualquer um dos anteriores). Um modelo para um tema de IA e educação:
“O Ministério da Educação (agente) deve incluir letramento em inteligência artificial na Base Nacional Comum Curricular (ação), por meio de formação de professores e de material didático gratuito para a rede pública (modo), a fim de que estudantes de todas as classes aprendam a usar a tecnologia com senso crítico (finalidade). Essa formação pode começar pelas escolas de Ensino Médio, onde o uso já é majoritário (detalhamento).”
Troque o agente conforme o problema: Congresso Nacional para leis, ANPD para dados pessoais, empresas de tecnologia para transparência de algoritmos, mídia para desinformação, família e escola para formação.
Vai cair inteligência artificial no ENEM 2026?
Ninguém sabe, e quem promete o tema está vendendo palpite. O que dá para afirmar é o histórico: em 2018, o ENEM propôs “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”, um tema vizinho da IA. O de 2025 foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. Por isso a estratégia inteligente é montar repertório por eixo, e não por tema fechado: privacidade e dados, trabalho, educação, desigualdade, saúde mental e desinformação servem para dezenas de propostas possíveis, com ou sem a palavra “inteligência artificial” no enunciado.
Posso usar IA para treinar a minha redação?
Pode, e deve, desde que ela seja corretora e sparring, e não autora. Peça que aponte falhas na coesão, que simule a nota por competência e que questione seus argumentos. Mas escreva o texto você, à mão, porque é assim que a prova é feita, e porque a IA erra a nota, principalmente na Competência 2 e na 5. Eu detalhei onde ela erra em Corrigir redação do ENEM com IA. Para o restante da rotina de estudo, veja IA para estudar, e se você está no vestibular e já pensa em TCC, os temas de TCC sobre IA também ajudam a ampliar o repertório.
Se você usa IA no dia a dia de estudos e quer aprender a fazer isso bem, esse é o tipo de conteúdo que a gente trabalha aqui na CPDF. Confira os guias linkados acima e monte o seu caderno de repertório por eixo, com uma frase de conexão para cada item.
Leia também
Spotify remove 50M faixas de IA spam, lança ferramentas
Spotify remove 50 milhões de faixas de IA das recomendações e lança ferramentas para proteger artistas humanos. Entenda o que muda nas recomendações, como funcionam AI Credits, Artist Profile Protection e os planos para ampliar a transparência e combater fraude em streaming.
10 min de leituraInfraestrutura de IAAmazon lança o programa Built Together para investir em comunidades de data centers
A Amazon apresentou o Built Together, um programa de US$ 1 bilhão em cinco anos para investir em comunidades que recebem seus data centers. O foco inclui educação técnica gratuita, bolsas em colleges, centros modulares de treinamento, eficiência energética e projetos de reposição de água. Entenda o que muda para governos locais, trabalhadores e empresas, com dados atualizados e análise equilibrada.
12 min de leituraiaIA para escolher escola e lista de material: comparar, decifrar a lista e montar o calendário
IA para escolher escola e lista de material: tabela de critérios, o que a lei proíbe cobrar e calendário em lembretes, com prompts prontos.
6 min de leituraTecnologia e IASocial Media Examiner 73% usam IA, Claude vence ChatGPT 2026
O relatório de IA 2026 da Social Media Examiner crava 73% de uso diário de IA entre marketers e vira o jogo, Claude é apontada como plataforma mais importante, à frente do ChatGPT. Entenda o que muda em conteúdo, agentes de IA, governança e ROI, com ações práticas para equipes B2B e B2C.
9 min de leitura