Redação sobre inteligência artificial: repertório sociocultural pronto para o ENEM e o vestibular
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Redação sobre inteligência artificial: repertório sociocultural pronto para o ENEM e o vestibular

Danilo Gato

Autor

19 de setembro de 2026
10 min de leitura

Resposta rápida

Para uma redação do ENEM ou de vestibular que toque em inteligência artificial, o repertório sociocultural que mais rende reúne quatro tipos de fonte: dados de pesquisa (a TIC Educação e a TIC Domicílios, do Cetic.br, mostram quantos brasileiros já usam IA e quem fica de fora), leis (LGPD, PL 2338/2023, Lei 15.123/2025 e o ECA Digital), autores (Byung-Chul Han, Zuboff, Harari, Hans Jonas, Cathy O’Neil) e obras (Ex Machina, Ela, Coded Bias, Black Mirror, Eu, Robô). O que separa uma citação boa de uma decorada é a conexão: cada referência precisa provar um ponto do seu argumento. Abaixo você encontra a lista pronta, organizada por tema, com o jeito certo de encaixar cada item.

Sou o Danilo Gato, e aqui na CPDF (Comunidade Profissionais do Futuro - por Danilo Gato) a gente vê todo dia como as pessoas usam IA para estudar. Conferi cada dado e cada lei desta página nas fontes oficiais, para você levar material de verdade e não uma lista de nomes soltos.

Qual é o erro que o Inep chama de “repertório de bolso”?

O Inep publicou em 18 de setembro de 2026 a Cartilha do Participante da Redação do Enem 2026, e ela traz uma advertência que vale para qualquer vestibular: evite o “repertório de bolso”. É a referência memorizada que o candidato leva pronta e enfia em qualquer tema, mesmo quando não combina. A própria cartilha descreve como um repertório guardado no bolso para ser usado com qualquer tema, mesmo que não seja totalmente adequado.

Na Competência 2, o repertório precisa ser legitimado (vir de uma área do saber, como história, ciência, filosofia, direito, literatura), pertinente ao tema e usado de forma produtiva, isto é, servindo de argumento. Citar “Black Mirror” numa frase e seguir adiante não pontua. Explicar o que o episódio mostra e usar isso para sustentar a sua tese, sim.

As provas do ENEM 2026 acontecem nos domingos 8 e 15 de novembro, e a redação cai no primeiro dia. Ainda dá tempo de montar um repertório bom, mas ele precisa ser treinado, não só lido.

Que dados e pesquisas citar numa redação sobre inteligência artificial?

Dado com fonte nomeada é o repertório mais seguro, porque ninguém discute uma pesquisa oficial. Estes quatro eu conferi nas páginas do CGI.br e do Cetic.br:

Dado Fonte Serve para argumentar
Sete em cada dez estudantes do Ensino Médio que usam internet já recorrem a IA generativa em pesquisas escolares (70%), mas só 32% dizem ter recebido orientação da escola sobre como usar TIC Educação (15ª edição, dados de 2024, divulgada em 16/09/2025), Cetic.br/NIC.br Educação, letramento digital, papel da escola
Cerca de 50 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais usam IA generativa, o que equivale a 32% dos usuários de internet TIC Domicílios 2025 (divulgada em 09/12/2025), Cetic.br Alcance da tecnologia, inclusão digital
O uso de IA vai de 69% na classe A a 16% nas classes D e E TIC Domicílios 2025 Desigualdade, exclusão digital
O uso vai de 59% entre quem tem Ensino Superior a 17% entre quem tem até o Ensino Fundamental. Entre quem não usa e tem até o Fundamental, 65% apontam a falta de habilidade como motivo TIC Domicílios 2025 Educação como porta de entrada, desigualdade de acesso

Um quinto dado, internacional e muito citado, é o da pesquisadora Joy Buolamwini, do MIT, no estudo Gender Shades (2018, com Timnit Gebru). Ao testar sistemas comerciais de reconhecimento facial, ela encontrou taxa de erro de até 34,7% para mulheres negras, contra 0,8% para homens brancos. É o melhor exemplo pronto para falar de viés algorítmico, porque mostra que a máquina reproduz o preconceito de quem a treinou.

Um cuidado que faz diferença na correção: escreva a fonte por extenso e o ano (“segundo a TIC Educação, do Cetic.br, divulgada em 2025”). Percentual sem origem soa como invenção, e o corretor está treinado para desconfiar.

Que leis brasileiras posso usar como repertório sobre IA?

Lei é repertório legitimado por natureza e ainda ajuda na Competência 5, porque você pode propor que ela seja cumprida ou ampliada. As cinco que mais rendem:

  1. LGPD (Lei 13.709/2018). O artigo 20 garante ao titular o direito de pedir a revisão de decisões tomadas unicamente por tratamento automatizado de dados que afetem seus interesses. Serve para falar de algoritmos que negam crédito, emprego ou benefício sem explicação. Se quiser entender a lei por dentro, tenho um guia sobre IA e LGPD.
  2. Emenda Constitucional 115/2022. Colocou a proteção de dados pessoais entre os direitos fundamentais da Constituição (art. 5º, inciso LXXIX). É uma ótima ponte para qualquer tema de privacidade.
  3. PL 2338/2023, o marco legal da IA. Foi aprovado por unanimidade no Senado em 10 de dezembro de 2024 e segue em análise na Câmara dos Deputados. Adota o modelo de risco parecido com o do AI Act europeu e prevê sanções pesadas. Como o texto ainda tramita, escreva “projeto de lei em análise”, nunca “lei”. Expliquei os pontos principais em Regulamentação da IA no Brasil.
  4. Lei 15.123/2025. Sancionada em abril de 2025, aumenta em metade a pena da violência psicológica contra a mulher quando o crime usa IA ou qualquer recurso que altere imagem ou som da vítima, ou seja, os deepfakes. Para falar de desinformação e violência digital, é um exemplo recente e concreto.
  5. ECA Digital (Lei 15.211/2025). Sancionada em setembro de 2025 e em vigor desde 17 de março de 2026, exige verificação confiável de idade e mais proteção para crianças e adolescentes em plataformas. Combina com temas de juventude, saúde mental e educação.

Fora do Brasil, dois referenciais servem de contraponto: a Recomendação sobre a Ética da Inteligência Artificial da UNESCO (2021), adotada pelos 193 países-membros, e o AI Act da União Europeia, que entrou em vigor em 2024.

Que autores e livros citar sobre inteligência artificial?

Aqui está a seleção que eu usaria, com a ideia de cada um e o tema em que ela encaixa. Cite o autor, a obra e a ideia, nessa ordem.

Autor e obra Ideia central Tema em que funciona
Norbert Wiener, Cibernética e sociedade (1950) O pai da cibernética já alertava que entregar decisões a máquinas exige responsabilidade humana Ética, responsabilidade
Alan Turing, “Computing Machinery and Intelligence” (1950) Propôs a pergunta “as máquinas podem pensar?” e o teste que leva seu nome Origem da IA, consciência
Hans Jonas, O princípio responsabilidade (1979) Uma ética para a era tecnológica, em que o poder de agir da humanidade cresceu mais que a nossa capacidade de prever consequências Ética, meio ambiente, regulação
Zygmunt Bauman, Modernidade líquida (2000) Relações e vínculos frágeis, que combinam com a substituição de contato humano por interface Saúde mental, relações sociais
Byung-Chul Han, Sociedade do cansaço (2010) Vivemos a era do excesso de positividade, em que o sujeito se explora e se esgota sozinho Trabalho, produtividade, saúde mental
Cathy O’Neil, Algoritmos de destruição em massa (2016) Modelos matemáticos opacos ampliam desigualdades ao decidir crédito, emprego e justiça Viés algorítmico, desigualdade
Shoshana Zuboff, A era do capitalismo de vigilância (2019) Dados de comportamento viraram matéria-prima de lucro, muitas vezes sem consentimento real Privacidade, manipulação
Yuval Noah Harari, 21 lições para o século 21 (2018) A automação pode criar uma “classe inútil” de trabalhadores sem função econômica Trabalho, desemprego
Paulo Freire, Pedagogia da autonomia (1996) Ensinar não é transferir conhecimento, e o educador precisa formar autonomia Educação, uso crítico da IA na escola

Para vestibular de humanas, vale sempre ter um brasileiro na manga. Paulo Freire encaixa em qualquer tema de educação e tecnologia, e é o que eu usaria para sustentar que a escola precisa ensinar a usar IA, em vez de só proibir. O dado da TIC Educação (só 32% receberam orientação) fecha esse argumento com números.

Que filmes, séries e documentários citar?

Obra de ficção é repertório válido quando você a usa como ilustração de um problema real, e não como resumo de enredo. Três frases bastam: o que a obra mostra, qual problema real ela ilumina e como isso sustenta a sua tese.

  • Ex Machina (2014, Alex Garland): uma IA manipula quem a testa para conquistar a liberdade. Serve para falar de manipulação emocional e limites éticos do desenvolvimento.
  • Ela (Her, 2013, Spike Jonze): um homem se apaixona por um assistente virtual. Bom para solidão, relações mediadas por tecnologia e saúde mental.
  • 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968, Stanley Kubrick): o computador HAL 9000 decide contra a tripulação. Clássico para falar de perda de controle sobre sistemas autônomos.
  • Eu, Robô (Isaac Asimov, 1950): as Três Leis da Robótica mostram que regras simples falham em situações complexas. Combina com regulação.
  • Black Mirror (série, 2011): cada episódio parte de uma tecnologia existente e leva a consequência ao extremo. Ideal para vigilância e reputação digital.
  • Coded Bias (documentário, 2020): acompanha Joy Buolamwini e o viés racial no reconhecimento facial. É o par perfeito do dado do Gender Shades.

Se você quer uma lista maior, com o que cada obra discute, tenho dois guias: Filmes e documentários sobre inteligência artificial e Animes sobre inteligência artificial.

Como encaixar um repertório em um parágrafo de desenvolvimento?

Use uma estrutura de quatro movimentos, que cabe em 5 a 7 linhas: tese, repertório, explicação e fecho. A tese diz o problema. O repertório traz a prova. A explicação liga a prova à tese. O fecho amarra ao tema da proposta.

Exemplo, para um tema sobre desigualdade no acesso a tecnologias:

A exclusão digital agrava a desigualdade educacional brasileira na era da inteligência artificial. Segundo a TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, o uso de IA chega a 69% na classe A e cai para 16% nas classes D e E, o que significa que estudantes de famílias mais pobres chegam ao mercado e ao vestibular sem a fluência que outros já dominam. Nesse sentido, o pensamento de Paulo Freire sobre a educação como formação de autonomia ganha atualidade: sem orientação, a tecnologia amplia a distância que deveria reduzir. Portanto, garantir letramento digital na escola pública é condição para que a IA seja ferramenta de ascensão, e não de exclusão.

Repare que o parágrafo usa dois repertórios de naturezas diferentes (um dado e um autor), explica os dois e volta ao tema no fim. É isso que o Inep chama de uso produtivo.

Como montar a proposta de intervenção sobre IA na Competência 5?

A Competência 5 exige uma proposta que respeite os direitos humanos e traga cinco elementos: agente (quem executa), ação (o que fazer), meio ou modo (como), finalidade (para quê) e detalhamento (mais um dado sobre qualquer um dos anteriores). Um modelo para um tema de IA e educação:

“O Ministério da Educação (agente) deve incluir letramento em inteligência artificial na Base Nacional Comum Curricular (ação), por meio de formação de professores e de material didático gratuito para a rede pública (modo), a fim de que estudantes de todas as classes aprendam a usar a tecnologia com senso crítico (finalidade). Essa formação pode começar pelas escolas de Ensino Médio, onde o uso já é majoritário (detalhamento).”

Troque o agente conforme o problema: Congresso Nacional para leis, ANPD para dados pessoais, empresas de tecnologia para transparência de algoritmos, mídia para desinformação, família e escola para formação.

Vai cair inteligência artificial no ENEM 2026?

Ninguém sabe, e quem promete o tema está vendendo palpite. O que dá para afirmar é o histórico: em 2018, o ENEM propôs “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”, um tema vizinho da IA. O de 2025 foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. Por isso a estratégia inteligente é montar repertório por eixo, e não por tema fechado: privacidade e dados, trabalho, educação, desigualdade, saúde mental e desinformação servem para dezenas de propostas possíveis, com ou sem a palavra “inteligência artificial” no enunciado.

Posso usar IA para treinar a minha redação?

Pode, e deve, desde que ela seja corretora e sparring, e não autora. Peça que aponte falhas na coesão, que simule a nota por competência e que questione seus argumentos. Mas escreva o texto você, à mão, porque é assim que a prova é feita, e porque a IA erra a nota, principalmente na Competência 2 e na 5. Eu detalhei onde ela erra em Corrigir redação do ENEM com IA. Para o restante da rotina de estudo, veja IA para estudar, e se você está no vestibular e já pensa em TCC, os temas de TCC sobre IA também ajudam a ampliar o repertório.

Se você usa IA no dia a dia de estudos e quer aprender a fazer isso bem, esse é o tipo de conteúdo que a gente trabalha aqui na CPDF. Confira os guias linkados acima e monte o seu caderno de repertório por eixo, com uma frase de conexão para cada item.

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